Edição #2 - quadro.news
No Quadro de hoje
“Ser ou não ser”, disse Hamlet – e olha que ele não era um dos irmãos Warner. Aqui estão alguns dos destaques da edição de hoje da newsletter:
Compra da Warner pela Paramount está quase saindo, mas dinheiro e pressões internas e externas geram dúvidas;
Netflix lança iniciativa editorial e avança sobre os creators – e o YouTube reage;
FAST cresce com aposta no rádio;
Bancada da Pipoca reúne candidaturas comprometidas com uma agenda para o audiovisual;
E o escândalo Vorcaro-Master respinga na imprensa.
Em meio a fatos desconectados, algoritmos e slop de IA inundando os feeds, acompanhar o que realmente importa nos negócios do entretenimento ficou mais difícil. Quadro faz essa curadoria por você: duas newsletters por semana, com análise e contexto, direto na sua caixa de entrada. Assine e não perca as próximas edições.
One hit wonders
Juíza mantém Paramount impedida de fechar compra da Warner e abre espaço para os opositores. Araceli Martínez-Olguín autorizou a apresentação de manifestações de grupos contrários ao acordo entre Paramount e os 12 estados que processaram para bloquear a aquisição da Warner Bros. Discovery. As petições deveriam ter sido apresentadas até a madrugada desta sexta-feira, 25. A operação, portanto, continua impedida de ser concluída.
São Paulo abriu um edital de R$ 40 milhões para filmes e séries. As vagas são destinadas exclusivamente a produtoras brasileiras independentes em dia na Ancine e com sede no estado há pelo menos dois anos. As inscrições são gratuitas e estão abertas até 3 de novembro no site do Fomento CultSP.
As dúvidas que pairam sobre o futuro da união Paramount-Warner
Desde 2018 para cá – em oito anos, portanto – a Warner esteve em dois arranjos corporativos diferentes. Primeiro, foi comprada pela AT&T. Depois, teve a fusão com a Discovery. Agora, parte para o terceiro: o conglomerado está sendo vendido para a Paramount Skydance.
Nesse contexto, assumir compromissos por cinco anos parece uma ambição inalcançável. Ainda assim, foi exatamente o que eles fizeram.
Nesta semana, Warner Bros. Discovery e Paramount Skydance fecharam acordos com a coalizão de procuradores-gerais, liderada pela Califórnia, e com o WGA, que se posicionavam na Justiça contra a união dos dois grupos. No papel, se comprometeram a diversas medidas por cinco anos – que já foram detalhadas na edição anterior desta newsletter.
O que chama a atenção aqui é justamente o pacto ser até o final de 2031.
Inicialmente, a primeira reação é ver esse como uma obrigação de período curto. O lançamento mínimo de 30 a 32 filmes por ano, além dos investimentos em qualificação profissional e na produção nos Estados Unidos, podem não compensar os prejuízos no longo prazo. Afinal, uma parcela importante das sinergias em operações desse porte costuma vir de corte de custos – e isso frequentemente significa cortar postos de trabalho. Para quem produz, significa menos portas para bater em busca de financiamento, distribuição e, no fim do dia, de trabalho.
Mas, na realidade, meia década pode significar uma eternidade. A disrupção causada pela tecnologia afeta especialmente as empresas de mídia legadas, enquanto a receita de mercados como o de TV paga míngua mês a mês. Um dos grandes argumentos para David Ellison ir em busca da formação de um mamute do entretenimento é justamente concorrer contra as big techs, mas os ajustes assumidos podem impedir parte das medidas que ele precisaria tomar para isso.

Cena de Se Beber, Não Case! (2009) A operação com a Paramount pode estar perto do fim. A ressaca, não. (Crédito: Warner Bros.)
No coração dessa aquisição, há ainda duas incógnitas. A primeira é a inteligência artificial. A corrida da IA inflou mercados, no que muitos chamam de bolha. O assunto é importante porque a tecnologia é um dos pilares da Oracle, big tech fundada pelo pai de David, Larry Ellison – que é o principal garantidor do negócio, com sua própria fortuna pessoal. A companhia teve um boom na bolsa de valores com a corrida da IA, mas os seus papéis já perderam 52,1% do seu valor no último ano.
O segundo é o petróleo. A lista de investidores do negócio, ao lado dos Ellisons, inclui os fundos soberanos Public Investment Fund, ligado ao governo da Arábia Saudita, com cerca de 15% do capital da empresa combinada; L'Imad Holding, de Abu Dhabi, com 12,8%; e Qatar Investment Authority, com 10,6%.
Para além da crítica sobre “entertainment washing”, feita por entidades como a Free Press, o dinheiro do Oeste Asiático é um ponto por conta da guerra dos Estados Unidos contra o Irã. O controle do Estreito de Ormuz é uma das disputas do conflito, e é por ali que sai uma parte importante do petróleo da Arábia Saudita. No caso do Qatar, praticamente todas as exportações marítimas precisam atravessar o estreito, incluindo as de gás natural liquefeito. Abu Dhabi tem uma dependência menor, mas também existe impacto.
Dinheiro é uma questão importante porque a compra da Warner Bros. Discovery está avaliada em quase US$ 111 bilhões – e, se a operação não for concluída até o final de setembro, a Paramount será obrigada a pagar uma taxa equivalente a cerca de US$ 7 milhões por dia pelo atraso. Por isso a autorização para a apresentação de manifestações, realizada pela juíza Araceli Martínez-Olguín, foi mais uma notícia negativa.
Não por acaso, a Paramount Skydance anunciou ontem, 24, que irá arrecadar mais US$ 7,5 bilhões em empréstimos para financiar o negócio. Além disso, pretende levantar cerca de US$ 44,4 bilhões em dívida garantida adicional, fora os financiamentos anunciados anteriormente.
Além disso, um estudo feito por The Wall Street Journal em julho indicava que a nova entidade combinada terá quase US$ 80 bilhões em dívida, enquanto a dívida líquida deve equivaler a cerca de 6,5 vezes o EBITDA anual (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização).
Tudo isso coloca uma pressão sem igual no corte de custos e no aumento de receita – e deixa pouca margem para erros, atrasos ou novos choques financeiros.
Não é à toa que, de acordo com o Semafor, David estaria considerando convidar o controverso Elon Musk, o homem mais rico do mundo, para se tornar parte de um “consórcio de investidores de capital da Paramount”. Mas o dinheiro de Musk, a essa altura, é outro castelo de cartas, sujeito às oscilações violentas do mercado.
Por esses motivos, há um ponto que coloca em dúvida o próprio cumprimento do acordo com os procuradores-gerais: pode não existir mais Paramount e Warner, da forma como estão sendo desenhadas agora, em 2031.
Leia também: Quem ganha e quem perde com a venda da Warner Bros. Discovery para a Paramount Skydance? É essa a pergunta que eu respondo na minha coluna desta semana no UOL. O texto traz as perspectivas do público, dos funcionários, de Hollywood, de David Ellison e até de Donald Trump. Leia aqui.
Rolando os dados

Fonte: eMarketer
Gráfico do eMarketer projeta a consolidação do mercado audiovisual americano. A mídia legada busca aumentar de tamanho para competir com as big techs que entraram no setor. O problema é que, em fusões desse mercado, dificilmente 1 + 1 é igual a 2.
Outros destaques em Quadro
📺 Tudum. A Netflix lançou oficialmente no Brasil a versão local de seu portal de conteúdo voltado aos fãs de seus filmes, séries e reality shows. É o Tudum.com, que existe desde 2021 e agora ganha por aqui sua primeira edição fora do inglês. A iniciativa não deve ser confundida com os eventos proprietários do streaming, com os quais divide o mesmo nome onomatopeico.
Com entrevistas, bastidores, anúncios, recomendações e matérias, o Tudum pode ser resumido como um “Omelete próprio da Netflix” – uma forma de estabelecer uma conexão direta com os assinantes. Com a atenção espalhada por redes sociais, imprensa, YouTube e tantas outras plataformas, reduzir intermediários faz sentido do ponto de vista da comunicação da empresa. Ajuda, claro, o acesso que a Netflix tem a seus próprios elencos, criadores, materiais e anúncios.
Boa parte do acervo disponível nesta estreia veio da edição internacional, mas já há matérias produzidas por uma equipe brasileira, principalmente em torno dos títulos nacionais. A edição local também ganhou um canal próprio no WhatsApp, com distribuição diária de conteúdo.
⚔️ Segunda Guerra do Streaming. Falando na Netflix, a companhia segue em busca de youtubers para levarem seu conteúdo lá – isso sem exigir que abandonem o YouTube. O canal Good Mythical Morning fez essa transição agora em setembro, e Alan’s Universe será o próximo, com novos episódios chegando simultaneamente à Netflix e ao YouTube, além de parte do catálogo entrando no streaming.
Do ponto de vista dos creators, é uma mudança importante. A plataforma do Google trabalha por revenue share, ou seja, dividindo a receita dos anunciantes – o que traz variáveis como número de views, CPM e diversas outras. Criadores desse porte também combinam essa receita com publicidade direta e outros formatos de monetização. Já um acordo de licenciamento adiciona uma receita fixa e mais previsível. Quando isso acontece sem abrir mão do YouTube, é o melhor dos mundos.
O que chama a atenção é justamente o avanço da Netflix neste mercado. A partir do momento em que passou a oferecer planos com publicidade, o serviço ganhou também um incentivo adicional para aumentar o tempo médio dos espectadores e, com isso, ampliar seu inventário de anúncios – no que eu chamo de Segunda Guerra do Streaming. Não se trata mais só de ter conteúdo exclusivo, mas de ter aquilo que conquista a atenção. E, se havia alguma dúvida sobre a estratégia, basta olhar para a Galinha Pintadinha: nascida no YouTube e ainda disponível por lá, a produção brasileira chegou a passar 100 semanas consecutivas no Top 10 da Netflix Brasil.

Good Mythical Morning, um dos canais que a Netflix está levando para sua plataforma sem exigir exclusividade: os episódios continuam chegando também ao YouTube (Crédito: divulgação / Good Mythical Morning)
🏹 Contra-ataque. Mas o Google já respondeu. O YouTube anunciou uma série de medidas para criadores e usuários da plataforma, incluindo feeds personalizados, edição assistida por IA, dublagem automática de lives e a organização de Shorts em temporadas e episódios. Todos os detalhes estão aqui.
A novidade mais importante talvez seja mesmo a possibilidade de transformar os Shorts – vídeos curtos verticais – em séries, o que melhora a experiência do público e ajuda na distribuição de microdramas. A essas medidas se soma o avanço do YouTube sobre conteúdos episódicos mais longos, já permitindo que criadores organizem vídeos horizontais em temporadas e programas numa experiência mais próxima da televisão.
Aos poucos, a Netflix vai virando o YouTube. E o YouTube, a Netflix.
🍿 Bancada da Pipoca. Oito entidades do audiovisual informam que 120 candidaturas, de quinze partidos e de todos os estados, aderiram até 22 de setembro à Bancada da Pipoca, iniciativa que certifica candidatos que assinam uma agenda comum para o cinema e o audiovisual.
A pauta inclui regulação dos serviços de streaming, descontingenciamento do Fundo Setorial do Audiovisual, regras para IA e direitos autorais, ratificação de acordos de coprodução, ajustes tributários e proteção social para trabalhadores da cultura. Participam ABRA, ABRACI, ABRANIMA, API, APACI, BRAVI, CONNE e SICAV.
É possível pesquisar as candidaturas no site da iniciativa. A adesão representa um compromisso público com essa agenda, mas não significa apoio ou endosso às candidaturas.
🌊 Surfando nas ondas do rádio. A tradicional Rádio Bandeirantes estreia como canal FAST no dia 28 de setembro na LG Channels, e em 1º de outubro no TCL Channel, com programação 24 horas e chegando a tempo da cobertura do primeiro turno das eleições.
Já o programa esportivo Estádio 97, que é um sucesso na Energia 97, vai para N Sports. A exibição será de segunda a sexta, das 17h30 às 20h. Quando houver conflito com eventos previamente programados, a atração será exibida em reprise.
FAST é um canal de televisão por streaming gratuito suportado por anúncios (sigla em inglês para Free Ad-Supported Streaming Television), formato que tem sido muito bem-visto no mercado e que conta com plataformas como Roku, Samsung TV Plus e Pluto TV. A N Sports, especificamente, também está disponível em operadoras de TV por assinatura como Claro, Vivo e SKY+.
Tanto esses serviços quanto os seus canais lineares precisam justamente de programação que traga espectadores recorrentes. Enquanto um lado amplia sua distribuição, o outro abraça uma comunidade de fãs engajados. Resta saber se o formato mantém o apelo no FAST, já que – ao meu ver – boa parte da base escuta o programa no trânsito ou em deslocamento.
🗞️ Master na imprensa. A Forbes Brasil surgiu no centro da relação entre Daniel Vorcaro e Luiz Fux, revelam Folha e Times Brasil. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal indicam que o ex-banqueiro, atualmente preso, autorizou a compra de passagens e hospedagem para o ministro do STF e sua esposa viajarem a Nova York, em maio de 2024, mas determinou que a emissão fosse feita por Antonio Camarotti, CEO e publisher da Forbes Brasil. A publicação organizou um almoço em homenagem a Fux, patrocinado pela BeFly, companhia que mantinha parceria financeira com o Banco Master. Segundo as reportagens, as conversas mostram Vorcaro discutindo o patrocínio e a organização dos eventos como alguém com poder direto sobre a operação.
A Forbes afirmou à Folha que os apoios da BeFly e do Master foram relações comerciais “formais, regulares e transparentes”. Mas há também uma questão societária: registros apresentados à CVM mostram o fundo Eagle Eye Investments declarando R$ 113,7 milhões em ações da FRBS Participações, controladora da Forbes Brasil, além de um mútuo conversível de R$ 100 milhões. O fundo tinha como cotista único o Astralo 95, alvo da primeira fase da Operação Compliance Zero, da PF, em novembro de 2025. A administração cabia à Reag Investimentos, liquidada pelo Banco Central em janeiro. Ambos, portanto, ligados ao escândalo do Master. Camarotti afirma que ele e a filha são os únicos sócios.
Governança e transparência dos veículos de comunicação são temas cada vez mais importantes – e têm relação, sim, com o tipo de tática que foi tema da edição piloto desta newsletter.
Aspas no Quadro
“Agora a concorrência não é mais entre nós [canais de TV aberta], e sim pela atenção geral das pessoas e das milhares de ofertas que vêm das plataformas e do YouTube.”
Tão falando por aí…
Lula deve assinar nesta sexta-feira, 25, uma medida provisória para proibir as bets no Brasil, informam veículos como O Globo. Até o fechamento desta edição, os termos da medida ainda não haviam sido definidos. O segmento é um dos grandes patrocinadores do futebol e da mídia no país. A coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo, informa que Globo, Band e RedeTV!, além dos times da Série A do Brasileirão, já foram notificados por Betano, Novibet, Superbet e Esportes da Sorte de que os atuais contratos de publicidade poderão ser rescindidos caso a medida entre em vigor – o que adiciona pressão indireta a uma questão polêmica a nove dias do primeiro turno das eleições.
YouTube rejeita aderir ao acordo sobre segurança infantil que pode elevar a conta da Meta. Para a CNN, o CEO Neal Mohan descartou a possibilidade de se juntar ao compromisso da empresa de Mark Zuckerberg com procuradores-gerais dos EUA. O pacto obriga a Meta a pagar cerca de US$ 12,1 bilhões e pode elevar o desembolso para aproximadamente US$ 17,1 bilhões caso YouTube e concorrentes adotem medidas semelhantes e contribuam com valores próprios. Mohan procura se distinguir de redes sociais como Instagram e TikTok, descrevendo o serviço do Google como um streaming de vídeo. Isso tudo é nos Estados Unidos, claro. No Brasil, o novo ECA Digital já obriga plataformas acessadas por crianças e adolescentes a oferecer ferramentas para que pais e responsáveis monitorem e limitem o tempo de uso, além de estabelecer mecanismos de aferição de idade.
A RedBird Capital, que já era investidora, fechou acordo para assumir o controle do Puck, numa transação que avalia a empresa de newsletters – e uma das inspirações para Quadro – em cerca de US$ 250 milhões. O novo controlador promete preservar a independência editorial e o modelo de negócio. O questionamento mais concreto, porém, será a gestão dos conflitos: a RedBird tem participações em cerca de cinquenta companhias, incluindo a Paramount. Matthew Belloni, um dos sócios-jornalistas do Puck, afirmou que essas relações passarão a ser indicadas em seus textos, mas não mudarão sua cobertura. (via Reuters)
Mercado Ads e Netflix Ads anunciaram uma parceria no Brasil e no México, permitindo combinar dados de comportamento de compra do Mercado Livre com o inventário publicitário da Netflix em transações programáticas. Segundo as empresas, o plano com anúncios do streaming alcança 35 milhões de espectadores ativos mensais no Brasil e 29 milhões no México; o marketplace declara 131 milhões de compradores anuais em seu ecossistema. São métricas divulgadas pelas próprias companhias, sem detalhamento público de deduplicação, frequência ou metodologia. (via Exame)
A Microsoft confirmou a eliminação de 268 posições em Halo Studios, outros estúdios próprios e áreas de gestão, além de uma reorganização que coloca Rare e World’s Edge, assim como o próximo Halo, sob a Activision. Uma equipe reduzida da Halo Studios continuará dando suporte aos jogos anteriores da franquia. Já a Obsidian passa à Bethesda; a Microsoft Casual Games, à King; e Playground e Turn 10 serão reunidas em uma única entidade voltada a Forza e Fable. A Undead Labs tornou-se independente. Resumindo: o grupo está enxugando sua estrutura de jogos eletrônicos para entregar a mesma coisa com um organograma menor. Resta saber o impacto no futuro do Xbox como console.
Acordo coletivo evita greve na King e dá aos funcionários voz prévia sobre demissões. O estúdio sueco, responsável por Candy Crush e de propriedade da Microsoft, assinou um acordo coletivo com Engineers of Sweden e Unionen, evitando a paralisação marcada para esta sexta-feira. O acordo garante aos trabalhadores informação com antecedência e participação em mudanças que afetem o ambiente de trabalho, incluindo reorganizações e demissões. (via GameDeveloper)
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