“Em meio ao caos, surge um novo uniforme.” É o que diz a capa de Secret Wars #8, marcada pela origem do uniforme negro do Homem-Aranha. Talvez o paralelo aqui seja parecido: em meio ao caos, surge um novo veículo.

Quadro chega para trazer, direto à sua caixa de entrada, o que está acontecendo de mais importante na indústria do entretenimento – tanto para profissionais quanto para quem quer entender melhor os movimentos por trás de sua série, filme ou jogo favorito.

Esta é uma edição piloto, um primeiro experimento. Leia. Se gostar, assine.

Edição #0 - quadro.news

No Quadro de hoje

Guerra do streaming, guerra pela Warner Bros. Discovery, guerra por direitos, piada com Guerras Secretas… Esta é uma edição bélica, digamos assim. Confira os principais destaques:

  • Filme do Homem-Aranha bate recorde nos cinemas, e o Brasil já tem representante no Oscar 2027;

  • Paramount e David Ellison adotam um PR polêmico na disputa pela Warner;

  • Ge TV chega ao Prime Video enquanto plataforma da Amazon que quer ser a “porta de entrada” do streaming – assim como a Roku e o JustWach;

  • TV paga volta a crescer, Emmy no Prime Video e muito mais!

Em meio a fatos desconectados, algoritmos e slop de IA inundando os feeds, acompanhar o que realmente importa nos negócios do entretenimento ficou mais difícil. Quadro faz essa curadoria por você: duas newsletters por semana, com análise e contexto, direto na sua caixa de entrada. Assine e não perca as próximas edições.

One hit wonders

  • Homem-Aranha: Um Novo Dia ultrapassou Star Wars: O Despertar da Força e se tornou a maior bilheteria da história nos EUA e no Canadá, sem ajuste pela inflação. De acordo com o Box Office Mojo, a arrecadação chegou a US$ 937,4 milhões no mercado doméstico, acima dos US$ 936,66 milhões do longa de 2015. Mundialmente, o filme já soma cerca de US$ 2,45 bilhões. O que fica no ar: será que Disney e Marvel conseguem levar esse embalo para seu próximo lançamento nos cinemas, justamente Vingadores: Doutor Destino? A ver.

  • A Academia Brasileira de Cinema escolheu Feito Pipa, de Allan Deberton, para representar o Brasil na busca por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Produzido por Deberton Filmes e Biônica Filmes, o longa-metragem estreia comercialmente no país em 5 de novembro. Detalhe importante: o título já tem agente de vendas internacional e distribuição fechada em vários territórios, mas ainda não foi anunciada uma distribuidora nos Estados Unidos – uma lacuna importante para a campanha na temporada de premiações.

O método PR hooligan

A operação de aquisição da Warner Bros. Discovery pela Paramount Skydance tem tudo para virar estudo de caso em cursos de comunicação e relações públicas. Mas provavelmente pelos motivos errados.

O conjunto de táticas empregado pela empresa de David Ellison não tem exatamente um nome único, mas eu gosto de chamá-lo de “PR hooligan” – e há paralelos claros com a política.

As sementes dessa estratégia apareceram ainda em 2024, quando Ellison tentava comprar a Paramount Global. Só que o próprio ambiente corporativo conturbado da empresa ajudava a embaralhar as coisas: até hoje, é difícil separar o que foi provocado pelo comprador daquilo que simplesmente aconteceu a seu favor.

No caso da Warner, porém, a mão da comunicação corporativa aparece de forma muito mais clara – e caminhou lado a lado com um plano de aquisição igualmente agressivo.

Por meses, a nova Paramount fez ofertas não solicitadas pela concorrente, que passaram a chegar à imprensa antes de qualquer acordo. Aqui, o PR já mostrava sua função dentro da negociação: como a WBD é uma companhia de capital aberto, tornar essas propostas públicas não servia apenas para pressionar o conselho. Também colocava os próprios acionistas na conversa, criando pressão de fora para dentro.

Quando o CEO da Warner Bros. Discovery, David Zaslav, habilmente (para ele) resolveu transformar a tentativa de compra em um processo público e estruturado – do qual a Netflix inicialmente saiu vitoriosa –, as táticas hooligans se tornaram ainda mais claras.

De um lado, Ellison e seu time passaram a desvalorizar a oferta da pioneira do streaming por assinatura, tanto em termos financeiros quanto de negócio. Do outro, surgiu uma pressão de diversos profissionais dentro da indústria – e fica difícil saber se agiram de forma independente ou não – contra uma fusão Warner-Netflix, levantando a bandeira da experiência cinematográfica contra o vídeo sob demanda.

Algumas das etapas que a Paramount adotou nesse processo:

  • escreveu diretamente aos acionistas pedindo que pressionassem o board;

  • pediu que aderissem à oferta com suas ações como forma de “registrar sua preferência”;

  • atacou publicamente o processo conduzido pelo conselho;

  • ajuizou ação pedindo mais informações sobre o acordo com a Netflix;

  • anunciou que indicaria uma chapa alternativa para o board;

  • iniciou uma solicitação de proxies para os acionistas votarem contra a Netflix;

  • construiu uma narrativa pública segundo a qual Netflix representaria concentração excessiva do streaming e Paramount seria “pró-Hollywood”, “pró-consumidor” e “pró-competitividade”;

  • enfatizou repetidamente as preocupações de exibidores, criadores e outros stakeholders com a Netflix.

Aqui, o time de PR da Netflix merece todos os elogios. Eles provavelmente sabiam que estavam entrando na cova dos leões. Por isso, se prepararam com porta-vozes bem treinados, que deram uma série de entrevistas à imprensa, enquanto a companhia assumia compromissos que neutralizavam alguns dos principais argumentos contra a aquisição. Até um site dedicado ao negócio colocaram de pé em pouco tempo, reunindo os principais pontos da defesa da operação.

Contudo, para cada reação, vinha uma ação mais forte – inclusive nas frentes jurídica e política. Havia uma clara escalada, com aumento constante do tom e da pressão. Além disso, a ofensiva foi acompanhada pelos chamados “vazamentos táticos”: informações fornecidas estrategicamente à imprensa para influenciar uma negociação, muitas vezes apresentadas de forma a favorecer a leitura de um dos lados.

David Ellison ao lado do pai, Larry — que é o fundador da Oracle e um dos homens mais ricos do mundo

Até porque o poder político entrou na jogada. Quer um exemplo? A Bloomberg relatou que, horas antes de lançar a oferta hostil, Ellison estava no Kennedy Center Honors conversando com Donald Trump e acompanhado pelo presidente da FCC, Brendan Carr. Depois, a Variety descreveu o esforço dos Ellisons para usar seus contatos políticos e fazer sua tese antitruste circular entre autoridades.

Até onde vai o lobby legítimo? E até que ponto a própria exposição desses encontros também ajudava a transmitir a ideia de que a Paramount teria um caminho regulatório mais favorável do que a Netflix?

Acontece que esse debate público atingiu o calcanhar de Aquiles de qualquer empresa com ações na bolsa: os investidores, que passaram a questionar a própria estratégia global da Netflix. Fazia sentido assumir uma dívida tão grande? A aquisição seria aprovada pelo governo Trump? E a necessidade de adquirir propriedades intelectuais e novas estruturas não seria, de alguma forma, uma admissão de que o streaming havia chegado ao teto?

Quando percebeu que tinha mais a perder do que gostaria, a Netflix construiu uma saída elegante – que, mais uma vez, também passa pela comunicação corporativa. Deixou a porta aberta para que a Paramount Skydance se sentasse à mesa, cobrisse a proposta e vencesse a briga pela WBD.

Quer dizer, ninguém ainda venceu. Nos últimos meses, estamos vivendo uma nova disputa – agora entre a Paramount e 12 procuradores-gerais estaduais dos EUA, liderada pela Califórnia. Aqui, política e entretenimento se misturaram de vez.

Novamente, informações sobre as negociações chegaram à imprensa – provocando a ira de Rob Bonta, procurador-geral da Califórnia, que cancelou uma reunião de conciliação depois que sua realização veio a público.

A escalada também continua. Primeiro, o Los Angeles Times publicou que David Ellison teria dito a interlocutores que levaria a Paramount para outro estado caso a ação na Justiça continuasse. Depois, o site Politico publicou o rascunho de um “estudo independente” segundo o qual uma saída da Paramount poderia cortar quase 58 mil empregos na Califórnia, além de retirar até US$ 21 bilhões por ano da economia local.

O estudo foi produzido pelo Institute for Applied Economics, do Los Angeles County Economic Development Corporation. Acontece que, como revelou depois o LA Times, a pesquisa havia sido encomendada e financiada pela própria Paramount. A LAEDC confirmou o pagamento, embora sustente que a análise foi conduzida de forma independente. 

Nesta semana, foi o TMZ que reportou que autoridades de Los Angeles e da Califórnia haviam sido informadas de um novo ultimato: Ellison estaria disposto a tirar a Paramount do estado caso não houvesse acordo até 1º de outubro. Já The Hollywood Reporter revelou um e-mail sobre as negociações de Ellison com o Texas.

Como vemos, o PR deixa de ser suporte da negociação e passa a fazer parte da própria disputa hostil.

Vejo o ambiente acadêmico como o ombudsman da comunicação. Por isso, deixo desde já uma provocação: transformar essa cobertura em uma tese de mestrado. Não só sobre as táticas utilizadas, mas também sobre a atuação da própria imprensa. Houve consistência nos argumentos a favor e contra os dois negócios, dentro dos mesmos veículos e entre os mesmos jornalistas? Os vazamentos foram seletivos? Quem claramente tomou partido?

Pelo bem do jornalismo.

Aspas no Quadro

“Pra gente, acabou”

É isso que o TMZ – que pertence à Fox Corporation, também dona da Fox News – afirma que a Paramount teria dito às autoridades da Califórnia, ao comunicar que se mudaria para outro estado caso não houvesse acordo.

Tão falando por aí...

✈️ Os voos da Ge TV. O canal esportivo gratuito completou um ano com 20,2 milhões de inscritos no YouTube, contra 41,5 milhões da CazéTV, que estreou justamente no início da Copa do Mundo de 2022. Os dados foram compilados pela Máquina do Esporte. A Globo afirma alcançar 38 milhões de pessoas por mês na plataforma, com um público majoritariamente formado por jovens de até 34 anos.

Nesta semana, a principal novidade é que o sinal ao vivo da Ge TV passou a ficar disponível sem custo adicional dentro do Prime Video, como já acontece com a CazéTV. Para a Globo, é uma nova porta de distribuição, alcance e briga direta. Já para a Amazon, reforça o discurso de agregador – ou de marketplace – de conteúdo, em uma disputa com Google e YouTube para ser a principal janela de streaming do usuário. Resta saber se, ao mirar na CazéTV, a Globo não está dando poder excessivo às big techs.

🫯 E essa luta para ser a janela para o streaming também esquenta. O JustWatch, conhecido como guia de disponibilidade de filmes e séries, lançará oficialmente em outubro o JustWatch TV, um serviço próprio com opções AVOD (grátis com publicidade), TVOD (aluguel) e SVOD (assinatura sem anúncios). A mudança transforma uma empresa que intermediava a descoberta de títulos em uma participante direta da cadeia de distribuição e transação. O lançamento inicial será em mercados como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Alemanha e Austrália — o Brasil, por enquanto, fica de fora.

A estratégia faz sentido: o usuário já está no JustWatch para procurar o que assistir. Por que, então, entregar esse usuário para outra plataforma se ele pode consumir o conteúdo ali mesmo? Além das receitas que a empresa já obtém com afiliação, mídia e dados, abrem-se novas frentes de monetização.

A questão é que Apple, Amazon, Google e outras big techs já competem por esse espaço, como vimos. E licenciar conteúdo é bem mais complicado do que apenas dizer onde ele está — isso sem falar na infraestrutura necessária para entregar o vídeo. Por outro lado, o JustWatch parte com uma vantagem importante: os dados de intenção de mais de 50 milhões de usuários mensais, que mostram o que esse público procura para assistir. Será algo interessante de acompanhar.

JustWatch é um grande guia para descobrir onde filmes e séries estão disponíveis — e agora quer dar o próximo passo

📦 O pacotão da Roku. Também nesta semana, a empresa norte-americana anunciou 30 combinações de assinaturas premium nos EUA, com descontos de até 30%, reunindo serviços como AMC+, Fox One e Starz. No México, adicionou dois pacotes, entre eles uma combinação de Filmelier+ e Adrenalina Pura+, ambos da brasileira Sofa Digital.

Se antes esses combos de streaming apareciam principalmente como uma forma de diminuir o churn, agora também viraram uma arma na disputa para ver quem controla a porta de entrada das assinaturas. A Roku está entrando de cabeça nessa briga, já destacada nos tópicos anteriores.

🗺️ Oi oi oi. Falando na Globo, a coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo, revela que já há canais estrangeiros interessados em Avenida Brasil 2, que estreia em janeiro do próximo ano. A novela original foi um sucesso de distribuição internacional, exibida em 150 países e dublada em 19 idiomas (inclusive, fica a dica de assistir aos capítulos em espanhol latino: é uma experiência totalmente nova). Agora, a emissora aposta nesse “recall” junto ao público.

Em um momento de maior projeção internacional da cultura brasileira, um novo sucesso pode abrir mais portas — e ajudar outras produções do país a ganharem o mundo. O sonho, claro, é ver o Brasil virar a nova Turquia ou Coreia do Sul. Quem sabe…

🐭 Mickey tem uma nova parceira. A Disney fechou com Like Nastya, uma das maiores criadoras infantis do YouTube, um acordo de conteúdo e desenvolvimento: série animada pré-escolar para Disney Jr. e Disney+, projetos live-action e uma seleção do catálogo já existente. Ela reúne mais de 450 milhões de inscritos em 25 canais e 22 idiomas. É o primeiro acordo de Nastya com um grande grupo de entretenimento, em um modelo que lembra o que o Luccas Neto fez de forma independente. 

Enquanto Netflix disputa creators de alcance geral, a Disney está comprando acesso a audiências infantis globais já formadas no YouTube – e tentando convertê-las em propriedade e distribuição próprias.

🗡️ A força do colecionismo. A pré-venda de The Legend of Zelda: Ocarina of Time para Switch 2 começou nesta semana – e a edição física rapidamente esgotou em alguns varejistas online, mesmo sendo vendida a preços entre R$ 409 e R$ 439. Na versão digital, diretamente com a Nintendo, o preço é R$ 329,90. O principal destaque dessa primeira tiragem é uma capa em foil texturizado – ou seja, com uma película metalizada –, exclusiva e limitada. Já tem, inclusive, revendedores cobrando muito mais caro em marketplaces online, ainda que o lançamento ocorra apenas em 5 de novembro. 

Isso tudo mostra a força do colecionismo, mesmo com a Sony anunciando que deixará de produzir mídia física para o PS5 a partir de 2028, enquanto GTA VI, que também sai em novembro, chegará às lojas sem nenhum disco dentro da caixa.

Rolando os dados

Fonte: Ibope

O Ibope divulgou o share de audiência de vídeo de agosto no Brasil. Passada a Copa do Mundo, a TV paga recuperou parte do terreno perdido: subiu de 6,7% para 7,5%, considerando todos os dispositivos. É razoável imaginar que parte desse crescimento tenha vindo às custas do YouTube, que caiu de 23,2% em julho para 21,7% em agosto. De qualquer maneira, a corrida da plataforma do Google é uma maratona – enquanto a televisão por assinatura segue perdendo fôlego.

Outros destaques em Quadro

  • A Television Academy está em conversas avançadas para levar a transmissão do Emmy para o Prime Video, afirma a Variety. Ainda que a audiência ao vivo da premiação seja limitada, exibi-la garante presença anual na conversa da indústria, um inventário publicitário relevante e um momento de autopromoção tanto para quem transmite quanto para quem concorre. O Oscar, vale lembrar, será transmitido com exclusividade mundial pelo YouTube a partir de 2029.

  • O Spotify Partner Program chega ao Brasil amanhã, 19 de outubro. Segundo o anúncio, criadores elegíveis poderão combinar quatro frentes: publicidade em vídeo, remuneração ligada ao consumo por usuários Premium, assinaturas e acordos diretos com marcas. Os critérios informados são três episódios publicados, duas horas de consumo nos últimos 30 dias e mil ouvintes no Spotify. São novas oportunidades de monetização para os criadores, e de publicidade para anunciantes. 

  • Globo encaminha volta do SporTV à Libertadores no ciclo de 2027–2030. Rodrigo Mattos, colunista do UOL, informa que o grupo brasileiro já acertou com a Conmebol uma parte do chamado “pacote 2” do torneio sul-americano. A Globo já ficou com a TV aberta; a ESPN, com o pacote principal de TV paga e streaming. Dos 75 jogos restantes, o SporTV ficará com uma parcela, enquanto a Paramount ainda pode permanecer com outra. Ou seja, a competição continuará pulverizada, exigindo ao menos duas assinaturas de quem quiser acompanhar tudo – talvez até três

  • Clubes e federações de futebol articularam um manifesto contra a possibilidade de o governo editar uma medida provisória que proíba as apostas esportivas. O texto chama a eventual medida de “fim do futebol brasileiro”, conta o UOL. Mas será que o futebol é o mais importante a ser defendido aqui?

  • A Apple não é a nova HBO. Depois de terminar o Emmy deste ano como a plataforma com mais vitórias, voltaram as comparações entre a Apple TV e a HBO de seus tempos áureos. Só que as duas seguem estratégias bem diferentes — e, para entender o que a Apple está fazendo no streaming, o paralelo mais interessante talvez esteja em outro produto da própria companhia: o iPhone. Explico em Na Sua Tela, minha coluna no UOL.

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