“It’s alive, IT’S ALIVE!”, diria o Dr. Frankenstein – e eu deixo a você decidir se estamos falando da interpretação de Colin Clive no clássico de 1931 ou da de Gene Wilder em O Jovem Frankenstein.

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Edição #1 - quadro.news

No Quadro de hoje

Nesta edição de estreia, o futuro do audiovisual brasileiro e de Hollywood está em Quadro – só que por motivos diferentes:

  • Paramount supera última grande barreira para comprar a Warner;

  • Brasil larga atrás na corrida pelo Oscar 2027;

  • Nos cinemas, Resident Evil estreia bem – e Minha Melhor Amiga mantém a liderança no nosso país;

  • Netflix com problemas, Disney+ com publicidade no plano Premium e greve no estúdio de Candy Crush;

  • E as principais estreias no cinema, no streaming e nos games.

Em meio a fatos desconectados, algoritmos e slop de IA inundando os feeds, acompanhar o que realmente importa nos negócios do entretenimento ficou mais difícil. Quadro faz essa curadoria por você: duas newsletters por semana, com análise e contexto, direto na sua caixa de entrada. Assine e não perca as próximas edições.

One hit wonders

  • La Bola Negra, de Javier Ambrossi e Javier Calvo, venceu o People’s Choice Award do Festival de Toronto. O filme já havia sido adquirido pela Netflix, que o lançará nos cinemas em outubro e no streaming em dezembro. O prêmio costuma pesar na corrida ao Oscar: quase todos os vencedores desde 2012 chegaram à indicação de Melhor Filme. A produção representa a Espanha na disputa de filme internacional e estará elegível nas outraras categorias.

  • George Lucas inaugura museu em Los Angeles. No sábado, 19, aconteceu a festa de inauguração do Lucas Museum of Narrative Art. O espaço é dedicado a diferentes formas de narrativa visual – incluindo escultura, HQs, fotografia e, claro, cinema. Além de reunir o arquivo da carreira de George Lucas, com objetos, figurinos e artes de produção de filmes como Star Wars e Indiana Jones, o espaço também exibe trabalhos de dezenas de outros artistas.

Brasil já tem filme para o Oscar 2027, mas sai atrás na corrida

É bom conter as expectativas sobre a presença do Brasil no Oscar 2027. Após dois anos muito fortes – com uma estatueta para Ainda Estou Aqui e quatro indicações para O Agente Secreto –, o país chega à disputa com perspectivas menos favoráveis para Feito Pipa.

O longa-metragem, escolhido na última semana para representar o Brasil na disputa por uma indicação a melhor filme internacional, tem participação limitada nos principais festivais de cinema do mundo. Com exceção da mostra Generation Kplus do Festival de Berlim, que possui júri próprio e se dedica às perspectivas do público jovem, a trajetória de Feito Pipa se concentra em eventos regionais ou de nichos temáticos.

Além disso, a produção ainda não conta com uma distribuição nos Estados Unidos, o que é primordial para contar com uma campanha na temporada de premiações.

O cenário é drasticamente diferente de Ainda Estou Aqui, que fez parte da seleção oficial do Festival de Veneza e esteve presente na programação de Toronto, que tem um peso importante entre os votantes do Oscar. Nos EUA, o título foi distribuído pela Sony Pictures Classics.

O Agente Secreto teve a premiére mundial em Cannes, onde foi aplaudido por 13 minutos e venceu os prêmios de Melhor Ator e Melhor Diretor. A Neon (de Anora) foi a responsável pela distribuição norte-americana.

Lembrando que o lançamento nos Estados Unidos não é um critério de elegibilidade dentro de Melhor Filme Internacional, mas é em outras – e uma campanha estruturada, com presença em festivais e na corrida por estatuetas é primordial. Desde 2019, todos os vencedores da categoria também foram indicados a Melhor Filme e/ou Melhor Diretor. Além disso, a maior parte dos eleitores da premiação vive na América do Norte. 

Feito Pipa conta com Lázaro Ramos no elenco e tem estreia nos cinemas brasileiros marcada para 5 de novembro (imagem: divulgação / Paris Filmes)

A decisão da Academia Brasileira de Cinema para este ano não foi a mais acertada, aponta o cineasta Felipe Haurelhuk, do YouTube Meu Tio Cinéfilo e especialista em Oscar. Na avaliação dele, o país não tinha uma “escolha óbvia” para 2027.

“Na ausência de um grande título, o melhor teria sido optar por produções que tivessem pelo menos um dos dois elementos: um nome forte/experiente no mercado da América do Norte ou distribuição assegurada nos Estados Unidos. Feito Pipa não tem nada disso”, explica Haurelhuk.

Para o cineasta, havia outras opções mais adequadas – como Vicentina Pede Desculpas, que esteve em Toronto e é distribuído pela Netflix. “Ainda que a gigante tenha como prioridade o espanhol A Bola Preta, é evidente que a máquina de campanha que ela é capaz de montar seria um ativo relevante na equação. Pelo menos para uma eventual indicação”, analisa. 

Outra possibilidade apontada pelo especialista é 100 Dias, de Carlos Saldanha – que possui trânsito na indústria norte-americana e já foi indicado ao Oscar. “Ninguém teria vida fácil, isso é evidente. Mas a escolha final não foi feita pensando no que seria mais estratégico. Uma pena”, lamenta.

“Aqui, não estou entrando no mérito da qualidade dos filmes. Estou pensando puramente nas chances que cada um teria para conseguir seguir adiante”, pondera. Segundo Haurelhuk, este é apenas um dos fatores que precisa ser levado em conta no caso do Oscar. 

“Claro que filmes muito ruins, aqueles muito fora de um padrão mínimo de qualidade costumam não avançar, mas depois você tem outros elementos que são muito mais fortes para determinar se um filme segue ou não na disputa”. A distribuição internacional é um desses fatores. São justamente os estúdios que se empenham – e investem – na campanha.

Uma forma para tentar reverter esse quadro seria Feito Pipa conquistar uma distribuidora nos EUA. “Neon, Mubi, Netflix ou até a Amazon, que no ano passado fez um trabalho muito bom pelo filme argentino”, lista o especialista. “O ideal seria já ter um distribuidor forte assegurado desde antes do anúncio, porque a corrida por uma indicação é muito disputada e cada dia perdido torna o processo mais caro e incerto. Então o timing já passou. [...] Se isso não se confirmar nos próximos 30 dias, e é improvável que aconteça, a chance concreta de indicação é praticamente nula.”

Para os próximos anos, a discussão deveria ser sobre os critérios usados na escolha do representante do país. “O Brasil conseguiu ganhar o Oscar por Ainda Estou Aqui não por causa da Academia Brasileira, e sim apesar dela”, desabafa Felipe Haurelhuk, que também faz parte do Conselho Deliberativo da instituição. “É bom lembrar que ano passado a Academia Brasileira esteve prestes a indicar Manas, e não O Agente Secreto, como representante brasileiro do Oscar. Um equívoco terrível que só foi evitado com muita mobilização da classe e das redes sociais.”

Aspas no Quadro

“A chance é mínima, para não dizer nula”

Felipe Haurelhuk, especialista em Oscar, sobre as possibilidades de vitória do Brasil com Feito Pipa.

Tão falando por aí...

🍿 Fim da novela. Paramount Skydance, Warner Bros. Discovery e a coalizão liderada pelo procurador-geral da Califórnia chegaram a um acordo com os 12 estados que tentavam barrar judicialmente a aquisição da WBD. Pouco depois, a WGA também encerrou sua ação. O acordo judicial ainda precisa da aprovação do juiz federal, mas, com isso, os dois processos deixam de ser as barreiras ao fechamento que eram até hoje. David Ellison disse aos funcionários que espera concluir a operação de US$ 110 bilhões em “aproximadamente duas semanas”, informa a Reuters.

A Paramount não terá de vender CNN, canais de TV ou outros grandes ativos da Warner. Em troca, aceitou um pacote de obrigações por cinco anos: 30 filmes para cinema anualmente nos dois primeiros anos e 32 nos três seguintes; no mínimo quatro independentes por ano; pelo menos 20% da oferta formada por grandes produções; e US$ 300 milhões adicionais anuais em produção doméstica em relação a 2025, totalizando pelo menos US$ 1,5 bilhão. Caso as metas de lançamentos não sejam atingidas, estão previstas multas de US$ 30 milhões por filme que faltar e a venda da Miramax.

Paramount e Warner terão de negociar separadamente, também por cinco anos, os pacotes de seus canais básicos de TV paga, e um conselho independente de integridade editorial deverá supervisionar CBS News e CNN. Os complexos de estúdios físicos também precisam ser mantidos. O acordo prevê ainda proteção contra o aumento de determinadas taxas cobradas dos exibidores até 2029 e obriga a companhia a manter um serviço gratuito de streaming, como Pluto TV, em nível comparável de serviço.

Para encerrar sua ação, a WGA conseguiu um acordo separado: a Paramount pagará US$ 17,5 milhões ao plano de saúde do sindicato, além dos custos jurídicos, e não poderá demitir roteiristas do CBS News Broadcast até 2031.

No geral, é uma vitória para David Ellison: ele manteve o coração econômico da operação, não precisará desmontar nada e o capital dos fundos do Oriente Médio permanece na estrutura da aquisição. A Paramount colocou no papel várias coisas que já vinha martelando publicamente como seus compromissos para a fusão. Resta saber os impactos no longo prazo – tanto para as finanças da nova companhia quanto para o mercado como um todo.

Como parte do acordo, Warner Bros. e Paramount concordaram em manter seus icônicos estúdios na Califórnia por ao menos cinco anos (Imagem: divulgação / Warner Bros. Studios Tour)

🧟‍♂️ Novo Resident Evil bate recorde. O reboot da franquia da Sony arrecadou US$ 108,3 milhões mundialmente neste fim de semana de estreia, registrando a maior abertura da história da franquia. Nos EUA e Canadá, o longa-metragem fechou o período com uma bilheteria de US$ 60 milhões, acima das projeções iniciais do estúdio. Ou seja, a fórmula de IP reconhecida, fanservice e execução competente ainda é um porto seguro para Hollywood. A produção tem orçamento de US$ 75 milhões.

Considerando o mercado exibidor norte-americano, o segundo lugar ficou com Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor, em sua segunda semana em cartaz. O terceiro posto foi para Homem-Aranha: Um Novo Dia, que já arrecadou US$ 2,48 bilhões em todo o mundo. A Odisseia também segue bem, com o quarto lugar e um faturamento total de US$ 1,7 bi. Coyote vs. Acme fechou o top 5. Os dados foram compilados pelo Box Office Mojo.

🇧🇷 Cinema brasileiro na liderança. Enquanto isso, no Brasil quem deu as cartas no fim de semana foi o longa-metragem nacional Minha Melhor Amiga, que estreou ainda em 3 de setembro. Dirigido por Susana Garcia e estrelado por Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, o filme levou 726,23 mil espectadores aos cinemas, chegando a um público acumulado de 3,86 milhões. Os dados são da Rentrak, via Portal Exibidor.

Resident Evil, o grande lançamento internacional, ficou em segundo, com 460,04 mil espectadores – seguido por Homem-Aranha: Um Novo Dia (235,86 mil), Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor (39,31 mil) e A Odisseia (38,24 mil).

🐭 Mickey promove mudanças. A Disney contratou Karandeep Anand, até agora CEO da Character.AI, como seu primeiro CTO e vice-presidente sênior, respondendo diretamente ao CEO Josh D’Amaro. Anand comandará tecnologia corporativa, infraestrutura, plataformas de dados e IA, produto e engenharia. A nomeação reforça a política de “One Disney”, pela qual D’Amaro procura reduzir a fragmentação entre unidades. Ela ocorre um dia depois de Adam Smith ser promovido ao comando do streaming, enquanto Joe Earley passou para uma função de estratégia de conteúdo e franquias. 

Anand trabalhou anteriormente na Meta e na Microsoft, onde participou da criação do Azure. Vale lembrar que, em 2025, a Disney enviou uma notificação extrajudicial à Character.AI por usos não autorizados de seus personagens. Agora contrata o executivo da empresa para administrar justamente a infraestrutura e as plataformas de IA do grupo. Seja como for, vemos que a tecnologia está deixando de ser apenas um suporte operacional do entretenimento para se tornar um foco corporativo

Estreias da semana

  • Streaming e TV. Na quarta-feira, 23, Apple TV estreia Brothers, com Matthew McConaughey e Woody Harrelson, enquanto a Netflix lança a produção brasileira Habeas Corpus, inspirada no trabalho do Innocence Project Brasil. No mesmo dia, Toy Story 5 chega ao Disney+, após uma exclusividade de 97 dias nos cinemas. Na quinta, 24, Disney+ lança a 13ª temporada de American Horror Story e a Netflix estreia a continuação de Um Mundo Diferente. Na sexta, 25, o Globoplay lança o reality Herança em Jogo; HBO Max recebe Backrooms e Netflix, UNABOMBER.

  • Cinemas. Nesta quinta-feira, 24, as estreias mais importantes são: Coração Selvagem, da Paramount e com Brad Pitt no elenco;  a animação A Ilha Esquecida, da Universal; e os relançamentos de One Piece: O Filme e de Vingadores: Ultimato Encore, da Disney. Este último será um teste do poder de mobilização do MCU antes de Vingadores: Doutor Destino, enquanto os demais entram na disputa pela sustentação do mercado depois da abertura de Resident Evil. Na sexta-feira, estreia nos EUA o longa Primetime, da A24 e com Robert Pattinson.

  • Games. Quinta-feira, 24, concentra dois lançamentos grandes: Control Resonant, da Remedy, para PS5, Xbox Series S|X e PC; e Silent Hill: Townfall, da Konami e Annapurna, para PS5 e PC. A coincidência coloca duas propriedades de horror narrativo na mesma data e permite observar o alcance comercial de uma sequência multiplataforma contra uma franquia mais conhecida, mas sem versão para Xbox no lançamento.

Outros destaques em Quadro

  • Queda de engajamento leva Wells Fargo a recomendar venda das ações da Netflix. O banco argumenta que a companhia perdeu força em produções originais capazes de concentrar audiência e que a expansão para games, podcasts, formatos ao vivo e outros produtos torna sua tese de crescimento mais complexa. Segundo estimativas reproduzidas pela imprensa financeira, o tempo médio diário de consumo por assinante no primeiro semestre de 2026 ficou 8% abaixo do mesmo período de 2023. Não são números divulgados pela Netflix nem uma medição consensual do mercado. O próprio diagnóstico também não é unânime: 12 dos 14 analistas acompanhados pela Visible Alpha ainda recomendam a compra da ação. Em um ano, o valor dos papéis da pioneira do streaming por assinatura despencaram cerca de 40%.

  • Hollywood agora quer trazer de volta à pós-produção. Na última semana, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, sancionou a lei AB 2319, que cria um incentivo fiscal próprio para atividades de edição, som, música, efeitos visuais e finalização. Segundo TheWrap, o crédito varia de 35% a 50% das despesas elegíveis e poderá ser usado mesmo quando a filmagem ocorrer fora do estado. O programa começa com US$ 10 milhões, bem abaixo dos US$ 100 milhões originalmente buscados pelo projeto. Na mesma rodada, Newsom assinou a SB 186, que melhora a reembolsabilidade dos créditos já existentes e, a partir de 2027, flexibiliza limites temporários para parte das produções independentes. A medida vem após a Califórnia elevar o teto anual de seu programa de incentivos de US$ 330 milhões para US$ 750 milhões em 2025.

  • Marvel’s Wolverine teria vendido 1,9 milhão de cópias nos primeiros três dias de vendas, aponta a Alinea Analytics. A consultoria calcula cerca de US$ 130 milhões em receita bruta, com 1 milhão de pré-vendas digitais. A mídia física teria respondido por 22,9% do faturamento, e os EUA concentrariam 53% dos compradores. O título é exclusivo do PS5 e os dados não são oficiais. Se corresponderem à realidade, é um começo forte para o novo título da Insomniac (da franquia Marvel’s Spider-Man) e para a Sony – ainda que o game tenha dividido a crítica e os fãs, sendo alvo de reclamações nas redes sociais. De qualquer forma, é possível que esse buzz negativo afete as vendas do título para além do hype do lançamento. 

  • Desenvolvedora chinesa vence processo por clonagem de vozes por IA. Um tribunal de Xangai condenou uma empresa não identificada a interromper a venda de pacotes que imitavam, por IA, as vozes de 63 personagens do game Genshin Impact e a pagar ¥ 750 mil – cerca de US$ 112 mil – à empresa MiHoYo. O caso foi enquadrado como concorrência desleal e também envolvia imagens e animações usadas na comercialização. A decisão não resolve a questão do uso de obras no treinamento de modelos: trata da reprodução e venda de ativos associados diretamente ao jogo (via Game Developer).

  • Disney+ abre a porta para publicidade até no plano Premium. Os novos termos brasileiros permitem conteúdo promocional, trailers, publicidade de produtos e serviços e conteúdo patrocinado antes ou depois da programação em qualquer plano, com exceção do modo infantil. Eventos ao vivo também podem carregar intervalos com anúncios. Não significa necessariamente uma carga tradicional de comerciais no Premium, mas a Disney criou contratualmente espaço para autopromoção e para monetizar inventário mesmo quando o assinante paga mais caro (via Exame).

  • Microsoft prepara cortes no Xbox. De acordo com The Information, a divisão de games deve realizar centenas de demissões e consolidar vários estúdios ainda nesta semana. Xbox Game Studios, Bethesda, Activision e Blizzard fazem parte da estrutura. 

  • Funcionários do estúdio de Candy Crush anunciam greve para 25 de setembro. Na Suécia, trabalhadores sindicalizados da King pretendem paralisar as atividades caso não haja um acordo coletivo com a empresa, controlada pela Microsoft. A King afirma oferecer condições competitivas, mas decidiu não aderir ao acordo. Curiosamente, a disputa não parte de uma denúncia de condições precárias: os funcionários dizem querer mais segurança no emprego e influência formal sobre as condições de trabalho. É mais uma frente da organização trabalhista dentro das grandes empresas de games.

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